POEMA DO DIA
31 de Julho de 2016
[Verbenas, perpétuas, violetas.]
Verbenas, perpétuas, violetas.
Seixos e areia a espaçá-las,
e o mirto enamorado a acalentar
a frieza da grade que cinge este recinto.

Não se saboreiam os dias,
o pão e o vinho aqui,
onde nem o vozeio do mar
encontra um peito
que o aceite como sua pulsação,
lacerando-se nas próprias cicatrizes.

Folhas, flores em que acreditamos
ao vê-las.
E até no halo
que as amplia, por nós criado
como incerto refúgio

em que nos expomos, indefesos,
ao crer que seguimos as raízes
deste exíguo jardim compadecido:

nelas descemos a tocar o que foi
rosto, alento, cabelos, mãos, palavras;
por elas se erguem para nós suas dádivas,

até nosso nome vivo nuns lábios, no olhar
que espelhava este azul
como se ele fora intacto sempre.

José Bento (1932)
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