POEMA DO DIA
28 de Janeiro de 2015
[onde terá começado a metalização da fala?]
onde terá começado a metalização da fala?

uma porta em alvenaria dá acesso
à eira de misteriosos e profundos limos

onde terei esquecido a cicatriz azul da escrita?

uma flor invade os veios secos da pedra
incendeia-se antes de se diluir na poeira

onde terei dado de beber à melancolia da memória?

o sangue transmutado em raríssimo metal
faz do coração e das veias a possível mina

onde vibrará a selvagem luminosidade dos pulsos?

há pistas estreitas de animal ferido pelas paredes
dentro do sonho segui-las-emos ao amanhecer

onde se esconderá o diminuto rosto ainda vivo?

insondáveis são as catástrofes da alma
e da loucura que já não nos prende um ao outro

que destino nos revela a mão sem linha da vida?

escuto o bater do tempo sob as pálpebras
e o terrível som da máquina de escrever

Al Berto (1948-1997)
Vigílias
(selecção e prólogo de José Agostinho Baptista)