POEMA DO DIA
22 de Outubro de 2014
Miséria Humana
Que são os homens, pois? Da dor triste morada,
Bola de falsa sorte, fogos-fátuos do tempo,
Palco de acres temores, e agudo sofrimento,
Neve logo fundida, e uma vela apagada.

Foge-nos esta vida qual conversa fiada.
Os que ante vós despiram do corpo o fraco manto
E no rol dos defuntos deste açougue entretanto
Seus nomes inscreveram, deles não ficou nada.

Tal como um sonho vão facilmente é esquecido
E corre sem parar o rio não reprimido,
Assim se apagará nosso nome, honra e sorte.

O que agora respira, esfumar-se-á com o ar,
O que vier depois, à cova há-de ir parar.
Que digo? Que nos vamos, qual fumo ao vento forte?

Andreas Gryphius (1616-1664)
inO Cardo e a Rosa (poesia do barroco alemão)
(selecção, tradução e prefácio de João Barrento)