2017-06-02

Armando Silva Carvalho [1938-2017]

Um poeta ácido, lúcido, erótico, político [Público]

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Armando Silva Carvalho, um dos nomes maiores da literatura portuguesa contemporânea, morreu um pouco antes das oito da manhã de ontem no hospital Montepio Rainha D. Leonor, nas Caldas da Rainha, na sequência de um cancro nos pulmões que só há dias fora diagnosticado. Tinha 79 anos. O seu funeral sairá hoje às 17h30 da igreja de Olho Marinho, no concelho de Óbidos, onde nasceu, para o cemitério local. A missa será celebrada pelo seu amigo, e também poeta, José Tolentino Mendonça.


Autor de alguns dos mais importantes títulos da poesia portuguesa das últimas décadas, como Alexandre Bissexto (1983), Canis Dei (1995) ou Lisboas (2000), não só escreveu quase até ao fim, como o vinha fazendo ao mais alto nível: a energia criativa do seu último volume de poemas, A Sombra do Mar (2015), só tem talvez paralelo recente em Servidões (2013), de Herberto Helder, a quem presta aliás homenagem num dos melhores textos do livro, O Grande Artesão.

A qualidade desta que veio a ser a sua obra final não passou despercebida: num exemplo de absoluto consenso muitíssimo pouco habitual, A Sombra do Mar ganhou os prémios da Sociedade Portuguesa de Autores, da Fundação Inês de Castro, da revista Cão Celeste e do festival Correntes d'Escritas, e ainda o Grande Prémio de Poesia António Feijó, co-atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores (APE) e pela Câmara de Ponte de Lima.

Este reconhecimento deu "um grande ânimo" ao poeta numa fase em que recuperava de um AVC, e terá contribuído para o levar a escrever alguns poemas – entretanto publicados no recém-lançado número 4 da revista Delphica –, contou à Lusa o seu amigo José Manuel Vasconcelos, dirigente da APE, que considera Armando Silva Carvalho "um dos grandes poetas portugueses", autor de "uma poesia de grande intensidade, amarga, mas de uma profunda lucidez em relação à realidade", uma poesia "que quase dá patadas no leitor".

Também o ministro da Cultura lamentou esta morte num comunicado que denuncia o poeta e leitor de poesia que Luís Filipe Castro Mendes também é: Silva Carvalho "destacou-se como uma das vozes mais singulares da nossa literatura, tanto na poesia como na prosa, graças ao modo como consegue articular certas experiências do quotidiano e uma notável criatividade da linguagem".

Uma das particularidades da recepção de Armando Silva Carvalho é o facto de a regularidade dos prémios e de outros sinais exteriores de apreço, como a presença nas principais antologias, nunca ter tido a contrapartida que seria de esperar em termos de produção crítica sobre a sua obra. Numa entrevista dada ao PÚBLICO há quase dez anos, por ocasião do lançamento da primeira compilação da sua obra poética (O que Foi Passado a Limpo, Assírio & Alvim), o autor sugeria mesmo que o longo prefácio de José Manuel Vasconcelos era a primeira abordagem de fundo à sua poesia.

De Gastão Cruz, seu amigo e companheiro de geração, passando pelo poeta Luís Miguel Nava, até críticos mais recentes, foram muitos os que escreveram sobre Armando Silva Carvalho, incluindo Eduardo Lourenço, que sublinhou a "acuidade" e "originalidade" da subversão da mitologia cultural lusíada que o autor empreende na prosa ficcional de Portuguex (1977). Mas fica a sensação de que falta ainda o grande estudo que merece.

Num testemunho enviado ao PÚBLICO, Gastão observa que Silva Carvalho "deixou, desde o começo, uma marca fortemente individualizada na poesia portuguesa". Associando-o aos que, no início dos anos 1960 tinham aberto "um espaço de inovação" na poesia portuguesa, "nomeadamente Herberto, Fiama ou Luiza Neto Jorge", lembra que, "logo nos seus três primeiros livros" – Lírica Consumível, O Comércio dos Nervos (1968) e Os Ovos d'Oiro (1969) –, o autor apresenta uma linguagem de frequente "matriz satírica", o que "levou a uma comparação com Alexandre O'Neill, que, aliás, o admirava". Mas "a sátira de Armando é mais ácida e explosiva", avisa o poeta.

Uma acidez a que o próprio visado chamava um "gozo em estragar o bonitinho", e que pode ajudar a explicar que não tenham sido assim tantos os que se atreveram a lidar criticamente com esta poesia agreste, sarcástica, fortemente política sem nunca cair no panfletário, e de uma violência erótica só talvez ultrapassada, na época, pela de Luiza Neto Jorge. Mas Armando Silva Carvalho também reclamou uma dimensão lírica que o rótulo de poeta satírico e anti-lírico terá obscurecido.

Nascido em 1938 num ambiente rural que marcaria para sempre a sua visão da cidade, licenciou-se em Direito, mas pouco exerceu a advocacia. Impedido de trabalhar na função pública por razões políticas, dedicou-se à publicidade enquanto sonhava com a carreira diplomática: "Via o Saint-John Perse, esses tipos, o Paul Claudel, e achava que era o que me convinha: sentava-me a uma secretária e tinha tempo para fazer versos".

Quatro anos após a publicação do seu livro de estreia, António Ramos Rosa já o incluía no quarto e último volume das prestigiadas Líricas Portuguesas. Depois do 25 de Abril, publica, em 1977, Eu Era desta Areia e Armas Brancas, singular diário poético do chamado processo revolucionário em curso. E em 1983 sai um dos seus livros mais justamente apreciados: Alexandre Bissexto. É também a sua última obra antes de um prolongado silêncio lírico, durante o qual o se vira para a ficção.

Regressa à poesia em 1995 com Canis Dei, mas passarão mais cinco anos até publicar Lisboas, que marca a sua fulgurante entrada no século XXI. Acabou a assombrar-nos com A Sombra do Mar, onde dialoga com a sua velhice e a perspectiva da morte. Escreve no poema Contramão: "Às vezes o poema espreita dentro do corpo/ e desconfia,/ vê os anos trocados, a língua muito grossa e carregada,/ o coração vadio e corrompido, as digestões nervosas,/ os pulmões sem espuma, lento o respirar,/ apressado o cio.// Não sabe onde expor as palavras, não encontra suportes, cantarias, majestade nos músculos,/ robustez na textura óssea,/ fluidez no sangue, no pescoço e na alma (...)".

Luís Miguel Queirós, Público, 02-06-2017

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