2021-06-11
4. A Bússola que Nos Perde (beijos sem norte)

Ao falarmos sem falar desenhamos invisíveis
as palavras onde moro, a cidade onde sei o destino
das ruas, onde se cruzam, se amam e se deixam.
Criam um corpo de letras afundadas nos seios
de uma mulher muito bela: a língua que nos guia
pela magnetosfera, mesmo se da minha boca se soltam
letras avulsas como passos correndo dentro de nós
em cada rua. O teu corpo elástico segue o rosto
aberto à música porque é bom – argumentas
como quem ruma ao sol – amarmos
as mesmas letras e a agulha que as guia
nos teus dedos que hei-de beber
ao navegarem de novo ao largo do meu corpo.
Dizemos qualquer coisa como olá, ou até terça,
a antecipar o beijo à espera
das letras soltas à volta dos guindastes.
O guindaste é a testemunha mais fiável do navio que
há-de fluir nos braços da ponte levadiça. O farol pisca
os olhos ao navio, a noite sorri-nos tudo e nada
enquanto a chávena aquece as pequenas coisas
que despertam no côncavo da mão. E ninguém
pergunta pela bússola que só dá o norte.
Estendes-me braços de sul sem coordenadas
e colhemos o que nem sabíamos ter semeado.

Rosa Alice Branco
Traçar um Nome no Coração do Branco

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