2020-11-03

Assírio & Alvim apresenta segundo volume da Obra Poética de António Ramos Rosa

Edição reúne os poemas publicados em livro ou folheto entre 1988 e 1996. Posfácio conta com assinatura de António Guerreiro

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«Das grandes constelações da nossa poesia do século xx, há uma delas que tem o centro e o lugar inaugural em António Ramos Rosa», lemos no posfácio de Obra Poética II, uma edição organizada e revista por Luis Manuel Gaspar, com a colaboração de Agripina Costa Marques e Maria Filipe Ramos Rosa, a exemplo do volume inaugural deste projeto. Em quase 900 páginas, habitam a deslumbrante intensidade do autor, a sua maravilhosa linguagem, os elementos concretos sem passado nem futuro, tudo o que no universo é omnipresente e eterno.

 

O livro estará disponível nas livrarias a 5 de novembro.

 

«Escrever, para Ramos Rosa, não é apenas um exercício que se cumpre por uma determinada disposição estética. Muito mais radicalmente, é um programa de vida, uma necessidade vital e ética que encontra no poema uma estratégia que lhe orienta o sentido e os horizontes. Por isso, a questão da poesia é para ele o dispositivo de uma relação com o mundo e de uma experiência do real que tem como sombra uma incompatibilidade essencial entre o homem e a sua palavra, entre o mundo e a escrita como superfície espelhante de reflexos e logros. Daqui nascem os temas maiores da sua obra: a palavra que tem por origem a sua própria impossibilidade, a reflexão imanente da escrita no acto da sua própria feitura.»

[Do Posfácio, António Guerreiro].

 

O MESMO ARCO

 

Eu diria que não vejo nada e que não sei.

Algo está suspenso. A hora repousa.

Eu quero estar vivo como uma ferida, como um signo,

não mais do que um rumor de coisa nua.

Neste momento nada é confuso nem opaco.

Os labirintos são trémulos, transparentes.

Dir-se-ia que atravesso um jardim e toda a vida

repousa entre as forças da cinza

e o fulgor da chama. E adormeço

sentindo a beleza e o tempo, o mesmo arco

iluminado.

 

O autor

António Ramos Rosa foi um destacado poeta e crítico português nascido em Faro em 1924. Foi militante do MUD (Movimento de União Democrática) e conheceu a prisão política. Trabalhou como tradutor e professor, tendo sido um dos diretores de revistas literárias como Árvore e Cassiopeia. O seu primeiro livro de poesia, O Grito Claro, foi publicado em 1958. A sua obra poética ultrapassa os cinquenta títulos. É ainda autor de ensaios, entre os quais se salienta A Poesia Moderna e a Interrogação do Real (1979-1980). Em 1988 foi distinguido com o Prémio Pessoa. Faleceu em setembro de 2013.

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