Páginas (IV)

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ISBN: 978-972-37-0528-7
Edição/reimpressão: 04-1999
Editor: Assírio & Alvim
Código: 78360
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SINOPSE

Na colecção "Obras de Ruben A" sai agora o 4º volume de PÁGINAS, obra de reflexões, vivências e impressões várias. As "páginas" deste volume, dedicado aos amigos João Gaspar Simões e Isabel da Nóbrega, que assina o prefácio desta edição, vão das "Páginas Londrinas" (Ruben A. foi Leitor no King's College entre 1947 e 1952) às "Páginas do Sargaço" (Carreço-Afife), onde o autor tinha uma casa virada para o mar. Pelo meio, entre outras, a aventura de uma viagem de Londres ao Sargaço, num velho táxi londrino, que comprara com o amigo Ruy Leitão, de que se transcreve em baixo a parte final, com a chegada ao Sargaço. O humor fino e uma prosa moderna fazem de Ruben A, (ficcionista, dramaturgo, historiador, com uma obra repartida por dezenas de volumes, do romance ao ensaio, passando pela autobiografia, conto e novela) um caso ímpar na literatura portuguesa.
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CRÍTICAS DE IMPRENSA

Dia final. De Pontevedra à fronteira é um salto de avestruz e Lord Snob - Duque de Taxi-Cab, queixando-se já dos intestinos (aquele azeite em Espanha)! Traqueava-se amiudamente dando morteiros castiços numa atmosfera cáustica - quase já não podia andar, estava atingido pela gota ancestral. Muitos Invernos londrinos e muita borracheira pouco comunicativa. Que alegria ver Portugal! Não é ver a pátria a querida a linda a louca e tola - é sentir que se entra por dentro daquilo que é nosso onde se fala a nossa língua e onde se viveu um bom par de anos. Comecei a ficar um pouco confuso ao ponto de tocar numa arrepiação saudosa. Aqui, perto, todo o Alto Minho e ir entrar directamente em minha casa - no Sargaço - vindo de Londres, é de certa classe. - Aparece no momento uma alegria de ver nascer as coisas e tudo sabe como se a natureza estivesse aninhada antes do nosso passar - crescem as árvores aparecem chapéus nos homens e um comboio voa em direcção às nuvens. E eu a divagar nesta alegria divina quando numa das curvas da estrada dois guardas-fiscais de espingarda em punho mandaram alto. - Travei Lord Snob como pude (ele não compreende estas intervenções consecutivas de autoridade) e parei mesmo grogue ao pé dos dois fiscais fardados de um cotim modesto e tendo uma beata sonolenta ao pé da boca. Então o mais decidido e de bigodes avançou para mim e disse: queremos ver as malas -, eu respondi calmamente que nos tinham inspeccionado as malas há pouco mais de 10 minutos. - Então os cavalheiros atravessaram a fronteira? Que fronteira? - Eu não sei, parece-me que aqui só há uma - foi pela fronteira de Valença. - Os senhores são estrangeiros, não são? - Somos, sim senhor - respondi eu sem hesitar. Então fazem favor de seguir - no entanto garantem-nos que esta viatura não é carro do exército nem de combate. Não senhor, tem a minha palavra que este carro não pertence ao exército ou à marinha. - Podem seguir. - Muito obrigado senhor guarda. No entanto para tornar o acontecimento como oficializado, o outro guarda escrevia num canhenho besuntado o número de matrícula do nosso carro. AXL-478-GB. Agora são lugares conhecidos: Vila Nova de Cerveira, São Bento de Seixas, Caminha, Moledo, Âncora e Lord Snob quase atingido por síncopes lá vai andando na dificuldade do seu tubo de escape. Alto! Daqui para lá a terra é minha - do cimo da Gelfa até ao farol de Montedor estende-se aquela visão espantada de amor e tranquilidade. Lá ao fundo está o sargaço, sonho, tempo de poesia e pôr-do-sol, realidade abstracta à custa de muitos sacrifícios domésticos. Coisa grande que medíocres não percebem. Proibidos todos os Vossas Excelências, multa de cem colarinhos peganhentos aos transgressores. Afife já está no papo e mais dois quilómetros andados para aparecer a beleza da sereia dando voos e saltos numa harmonia perpétua. Tudo é presente de agora. Sargaço é mais do que sonho - aparece como vislumbre perfeito de uma ideia transportada ao mundo da fantasia. - O nosso Marquês ficou tão entusiasmado que avançou pelo mato em doida correria até se sentir encostado à casa. Ficou de capota aberta a dessuar-se Estava louco por ter terminado esta viagem ao longo de tanta paisagem e tanta costa numa procura contínua ao sustentáculo da maior realidade para sonhar. Houve uma chegada quase simbólica - a Cidalina julgava que vínhamos num carro do outro mundo e que os tacos de golfe eram metralhadoras. Depois de acalmada pelas nossas palavras de paz e conforto foi preparar os pastelinhos de bacalhau enquanto nós fomos a correr por ali abaixo até à praia. Precisávamos de nos abençoar na água viril desta costa. Que bonito tudo isto! É dos lugares mais íntimos ao pé do céu e só posso dar graças a Deus de ter aqui chegado e pedir sempre ao São Cristóvão que me leve a bom destino. Almoço alárvico. Horas depois um começo de pôr-do-sol que espantava os mais calmos numa transição para quarto crescente de Vénus à espreita para nos constelar-mos em céu límpido. Ah! Queria muitos destes dias de totalidade para satisfazer os meus sentidos. Afinal… viajar de táxi de Londres ao Sargaço é uma coisa dentro dos limites permitidos às forças humanas. Tem classe, mesmo que os rafeiros ladrem na sua alacridade acéfala.
Dia final. De Pontevedra à fronteira é um salto de avestruz e Lord Snob - Duque de Taxi-Cab, queixando-se já dos intestinos (aquele azeite em Espanha)! Traqueava-se amiudamente dando morteiros castiços numa atmosfera cáustica - quase já não podia andar, estava atingido pela gota ancestral. Muitos Invernos londrinos e muita borracheira pouco comunicativa. Que alegria ver Portugal! Não é ver a pátria a querida a linda a louca e tola - é sentir que se entra por dentro daquilo que é nosso onde se fala a nossa língua e onde se viveu um bom par de anos. Comecei a ficar um pouco confuso ao ponto de tocar numa arrepiação saudosa. Aqui, perto, todo o Alto Minho e ir entrar directamente em minha casa - no Sargaço - vindo de Londres, é de certa classe. - Aparece no momento uma alegria de ver nascer as coisas e tudo sabe como se a natureza estivesse aninhada antes do nosso passar - crescem as árvores aparecem chapéus nos homens e um comboio voa em direcção às nuvens. E eu a divagar nesta alegria divina quando numa das curvas da estrada dois guardas-fiscais de espingarda em punho mandaram alto. - Travei Lord Snob como pude (ele não compreende estas intervenções consecutivas de autoridade) e parei mesmo grogue ao pé dos dois fiscais fardados de um cotim modesto e tendo uma beata sonolenta ao pé da boca. Então o mais decidido e de bigodes avançou para mim e disse: queremos ver as malas -, eu respondi calmamente que nos tinham inspeccionado as malas há pouco mais de 10 minutos. - Então os cavalheiros atravessaram a fronteira? Que fronteira? - Eu não sei, parece-me que aqui só há uma - foi pela fronteira de Valença. - Os senhores são estrangeiros, não são? - Somos, sim senhor - respondi eu sem hesitar. Então fazem favor de seguir - no entanto garantem-nos que esta viatura não é carro do exército nem de combate. Não senhor, tem a minha palavra que este carro não pertence ao exército ou à marinha. - Podem seguir. - Muito obrigado senhor guarda. No entanto para tornar o acontecimento como oficializado, o outro guarda escrevia num canhenho besuntado o número de matrícula do nosso carro. AXL-478-GB. Agora são lugares conhecidos: Vila Nova de Cerveira, São Bento de Seixas, Caminha, Moledo, Âncora e Lord Snob quase atingido por síncopes lá vai andando na dificuldade do seu tubo de escape. Alto! Daqui para lá a terra é minha - do cimo da Gelfa até ao farol de Montedor estende-se aquela visão espantada de amor e tranquilidade. Lá ao fundo está o sargaço, sonho, tempo de poesia e pôr-do-sol, realidade abstracta à custa de muitos sacrifícios domésticos. Coisa grande que medíocres não percebem. Proibidos todos os Vossas Excelências, multa de cem colarinhos peganhentos aos transgressores. Afife já está no papo e mais dois quilómetros andados para aparecer a beleza da sereia dando voos e saltos numa harmonia perpétua. Tudo é presente de agora. Sargaço é mais do que sonho - aparece como vislumbre perfeito de uma ideia transportada ao mundo da fantasia. - O nosso Marquês ficou tão entusiasmado que avançou pelo mato em doida correria até se sentir encostado à casa. Ficou de capota aberta a dessuar-se Estava louco por ter terminado esta viagem ao longo de tanta paisagem e tanta costa numa procura contínua ao sustentáculo da maior realidade para sonhar. Houve uma chegada quase simbólica - a Cidalina julgava que vínhamos num carro do outro mundo e que os tacos de golfe eram metralhadoras. Depois de acalmada pelas nossas palavras de paz e conforto foi preparar os pastelinhos de bacalhau enquanto nós fomos a correr por ali abaixo até à praia. Precisávamos de nos abençoar na água viril desta costa. Que bonito tudo isto! É dos lugares mais íntimos ao pé do céu e só posso dar graças a Deus de ter aqui chegado e pedir sempre ao São Cristóvão que me leve a bom destino. Almoço alárvico. Horas depois um começo de pôr-do-sol que espantava os mais calmos numa transição para quarto crescente de Vénus à espreita para nos constelar-mos em céu límpido. Ah! Queria muitos destes dias de totalidade para satisfazer os meus sentidos. Afinal… viajar de táxi de Londres ao Sargaço é uma coisa dentro dos limites permitidos às forças humanas. Tem classe, mesmo que os rafeiros ladrem na sua alacridade acéfala.

DETALHES DO PRODUTO

Páginas (IV)
ISBN: 978-972-37-0528-7
Edição/reimpressão: 04-1999
Editor: Assírio & Alvim
Código: 78360
Idioma: Português
Dimensões: 136 x 212 x 18 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 208
Tipo de Produto: Livro

sobre Ruben A.

Ficcionista e ensaísta português, Ruben Alfredo Andresen Leitão nasceu a 26 de maio de 1920, em Lisboa, e morreu a 26 de setembro de 1975, em Londres. Formado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Coimbra, foi docente na área da Língua e Cultura Portuguesas naUniversidade de Londres (1947-1952), tendo sido convidado para desenvolver atividade docente na Universidade de Oxford alguns meses antes da sua morte.
Entre 1954 e 1972, foi funcionário da Embaixada do Brasil em Lisboa. Estudioso de D. Pedro V, tendo procedido à edição dedocumentos de governação e correspondência inédita do monarca, foi ainda autor de vários verbetes no Dicionário de História de Portugal , dirigido por Joel Serrão. Integrou, em 1972, o Conselho de Administração da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, no domínio da qual foi responsável poruma importante atividade de edição. Colaborou com algumas publicações periódicas, tendo, por exemplo, redigido inúmeras recensões críticas na secção de "Livros escolhidos" no Diário Popular , entre 1963 e 1974. Estreou-se, em 1949, com Páginas , uma obra híbrida, misto de diário e de ficção,cujo sexto volume seria editado em 1970. Chocando pela mordacidade, pela irreverência linguística e pela desconstrução dos eixos narrativos tradicionais, estreara-se, entretanto, na novelística com o romance Caranguejo , publicado em 1954, a que se seguiria, em 1965, um dos seus maioressucessos, A Torre da Barbela (prémio Ricardo Malheiros), obra que sobrepõe, num delírio verbal apostado na caricatura da psicologia portuguesa, várias épocas da História da nacionalidade. A segunda metade da década de 60 será marcada pela publicação dos três volumes autobiográficos: O Mundo à Minha Procura . Em 1973, publicou a sua última obra, a novela Silêncio para 4 , deixando inédito o romance de inspiração histórica Kaos. A obra vasta de Ruben A. incide particularmente sobre dois tipos de registos literários: a ficção autobiográfica e a ficção histórica. Num longo itineráriode conhecimento da existência através do ato de escrita, seja no registo diarístico, seja ficcional, seja histórico, Ruben A. é um dos autores que, partindo da fratura da identidade operada por Fernando Pessoa ou por Mário de Sá-Carneiro, mais recorrentemente problematizam odesdobramento do eu, numa reflexão que culminaria com obras como O Outro que Era Eu , uma introspeção sobre o "processo de desintegração do eu abandonado à sensação de "embarcar no Outro", até ao acontecimento insólito de "integração total de um ser em outro" enquanto sinónimode uma "nova era". Este projeto de busca de si mesmo alcança, em obras como A Torre de Barbela e Kaos , uma dimensão de busca da identidade coletiva que, pela subversão cronológica, se posiciona como crítica irónica e surrealizante a uma certa forma de ser português. Pouco conhecidocomo autor dramático, Ruben A. é autor de uma peça em dois atos, Júlia , publicada em 1963, onde, segundo Luiz Francisco Rebello (cf. 100 Anos de Teatro Português (1880-1980), Porto, ed. Brasília, 1984, p. 35), "é notória a influência do moderno teatro inglês em geral e de T. S. Eliot emparticular", tendo ainda deixado alguns textos inéditos, como a peça em um ato Triálogo .
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